domingo, 28 de junho de 2009

Charles Baudelaire.

Embriaguem-se

"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'."

  • Os Benefícios da Lua.

"A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo, mesma: - "Esta criança me agrada."
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desmaiam sobre os pianos e gemem que nem as mulheres, com uma doce voz enrouquecida!
E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos verdes a quem também estreitei a garganta em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da sua loucura.
E é por isso, maldita e querida criança mimada, que estou agora prosternado a teus pés, buscando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha, da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos."

  • Repentes III
Creio ja ter escrito em minhas notas que o amor se assemelha muito a uma tortura ou a uma operação cirúrgica.Mas está idéia pode ser desenvolvida de maneira mais amarga. Mesmo que os dois amantes estejam muito apaixonados e muito cheios de desejos recíprocos, sempre um dos dois será mais calmo, ou menos possesso, do que o outro.
Aquele ou aquela é o operador ou o carrasco; o outro é o paciente, a vítima. Ouvis estes suspiros, prelúdios de uma tragédia de desonra, estes gemidos, estes gritos, estes estertores? Quem ja não os proferiu, quem já não os terá irresistivelmente arrancado? E que achais de pior na tortura aplicada por deligentes algozes?
Esses olhos revirados de sonâmbulo, esses membros cujos músculos pulam e se enrijam como sob uma ação duma pilha galvânica, a embriagues, o delírio, o ópio, nos seus mais furiosos resultados, disso não vos darão, por certo, tão horríveis, tão curiosos exemplos.
E o semblante humano, que Ovídio julgava talhado pra refletir os astros, ei-lo não revelar mais do que uma expressão de ferocidade louca, ou se destende numa espécie de morte. Pois, em verdade, eu pensaria cometer um sacrilégio se aplicasse a palavra êxtase a esse genero de decomposição.
- Terrivel jogo, em que um dos jogadores tem que perder o domínio de si mesmo!
Perguntaram certa vez, diante de mim, em que consistia o maior prazer do amor. Alguém respondeu, naturalmente: `` Em receber ´´ e outro:`` Em se entregar´´
Diz este: `` Prazer do orgulho´´ - e aquele: `` Volúpia da humildade ´´.
Todos esses desbocados falam como a Imitação de Cristo. Enfim surgiu um impundente utopista que afirmou que o maior prazer do amor é formar cidadãos para a pátria.
Por mim, afirmo: a volúpia única e suprema do amor consiste na certeza de fazer o mal. E o homem e a mulher sabem, de nascença, que no mal se encontra toda a volúpia.

Trecho do livro : Meu Coração Desnudado - Charles Baudelaire


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